26 de janeiro de 2017

Duas faces da mesma moeda

Quem acompanha a internet ou está em contato com notícias de alguma forma, deve ter percebido, mesmo que de forma sutil, que os conteúdos veiculados vem se tornando cada vez mais políticos. Aqui mesmo no The Geekgasm isso tem acontecido. Nossos posts têm levantado bandeiras que antes não eram levantadas por aqui. Temos falado de assuntos que não falávamos antes, temos tocado em feridas que antes eram cuidadas para se fecharem. Mas a verdade é que, por mais que neguemos, tudo o que fazemos em matéria de blogs, jornalismo, notícias e especialmente de entretenimento, tem relação com a política.

Assim como escolhemos o que vestir, o que comer, o que ouvir nos nossos celulares, que redes sociais acessar e com quem nos relacionar; nossas preferências quanto à televisão, literatura, videogames e todo o resto que envolve a indústria do entretenimento são reflexos do nosso posicionamento. As relações entre mídia e política ocupam um largo espaço na agenda de pesquisas sobre comunicação. Ao longo da história da comunicação, estudos tanto no campo político quanto na área de mídia sublinharam vários aspectos dessa relação. 


Nas últimas décadas, entretanto, outra ramificação desses estudos parece ter se desenhado no horizonte da pesquisa. Trata-se de um deslocamento de foco:  com os pesquisadores Brants e Neijens em 1998 e posteriormente com Panke em 2010, surge uma vertente de estudos direcionados para conhecer as relações entre entretenimento e política.

Tradicionalmente, há uma visão negativa nessa relação: o entretenimento, sob os nomes cultura de massas, indústria cultural ou cultura popular, levaria à progressiva alienação da sociedade a respeito da política. Segundo os argumentos de Postman e Putnam, em linhas gerais, a presença cotidiana da mídia e a impossibilidade de separá-la do processo político e mostram que  há uma premissa negativa: o entretenimento desvia a atenção das coisas importantes e desmantela o engajamento cívico, criando problemas para a democracia. 

Eu, em minha humilde insignificância, escrevo esse texto para discordar desses argumentos. Primariamente por achar que o entretenimento é uma forma de política e segundo por acreditar naquilo que chamo de direcionamento de conteúdos. Meu raciocínio se baseia na premissa de que, o entretenimento, em todas as suas formas, é livre para se espalhar através das TVs, dos rádios, da internet, dos jornais, dos livros, das revistas, dos videogames e chegar a um número imenso de pessoas. Esse fator lhe permite direcionar ao público conteúdos que outras ramificações da mídia não conseguem. É o que explica Street, em 2007:

A cultura pop pode, no sentido de apresentar várias formas de identidade, se misturar com a política, em particular no sentido relativo à cidadania, no direito a "fazer parte" e ser reconhecido. A cultura pop pode igualmente se tornar uma forma de resistência, como uma forma de desafiar ou mesmo negar o poder.



Nesses termos, é impossível não lembrar, por exemplo, do papel da música popular na política brasileira, sobretudo durante o período militar. E mais recentemente, através dos discursos e marchas de atrizes, atores, produtores de conteúdo e membros da industria do entretenimento não só do Brasil, mas do mundo, somos lembrados que este talvez seja o único canal disponível para alguma forma de contestação, e sua mensagem pode ser compreendida pelo público com todo o seu potencial político. 

Assim posto, não creio que entretenimento e política sejam opostos como alfa e ômega. Eles se complementam e são simbiontes numa esfera maior que é a sociedade. Entretenimento e política são duas faces da mesma moeda, duas metades de um redimensionamento crítico que vê o entretenimento não como um elemento potencialmente negativo, mas como um espaço de conflito mas também de diálogo, algo que necessitamos e necessitaremos se quisermos construir uma sociedade igualitária e um futuro do qual possamos nos orgulhar.

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